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Titular faz reflexão sobre pós-pandemia

  • Publicado: Quinta, 25 de Junho de 2020, 16h46
  • Última atualização em Quinta, 25 de Junho de 2020, 16h47
  • Acessos: 779

A convite do Núcleo de Comunicação Social, Henrique Lins de Barros, pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), faz reflexão sobre o passado, o cotidiano alterado pela pandemia e a viabilidade de um mundo pós-covid-19.

 

Rio de Janeiro: junho de 2020. E depois?

Em casa, nestes dias de quarentena, estranho o silêncio da rua. Em geral, as manhãs eram tomadas pelos gritos das crianças das escolas brincando e pelo irritante barulho das vans que traziam os alunos que chegavam. Pontuais, às 7h, éramos acordados pelo som dos motores em ponto morto e pelos meninos conversando e jogando futebol logo antes de entrarem nos colégios. Sem falar na conversa dos porteiros, que já tinham assuntos, discutindo e comentando as notícias da noite anterior.

Depois, as manhãs ficavam menos barulhentas, para voltar a se anunciar, ao meio-dia, com a saída dos alunos da manhã e a chegada dos colegas da tarde. A rua era uma companheira, mesmo quando não saíamos de casa.

Hoje, estamos vivendo num mundo diferente. A rua está silenciosa, sem gente. As poucas pessoas que estão nelas passam mascaradas e distantes, apesar de o tempo estar lindo, com um céu azul sem névoa e temperatura agradável. Nesse início de outono, acordamos com os tucanos cantando e as maritacas, sempre com muito assunto, anunciam o novo dia. Mais tarde, ainda na manhã, os micos aparecem nas árvores. Olhando as poucas pessoas que surgem na rua com máscaras, fico triste. Onde está o sorriso?

As manhãs e as tardes são interrompidas pelo computador: os e-mails que insistem em chegar; o celular o tempo todo anuncia mais um WhatsApp; o telefone fixo chama para mais uma propaganda com a voz eletrônica. WhatsApp, e-mail, Instagram, celular... um tempo de comunicação virtual.

Em casa, longe do meu escritório, onde tenho os arquivos e trabalhos de referência, sem o contato com os colegas para poder trocar ideias, sem o sagrado cafezinho que interrompe a rotina e traz uma pausa no que estamos fazendo, ficamos restritos a indivíduos solitários. Somos seres sociais. E, apesar disso, muitos veem isso como um avanço que anuncia um mundo melhor e mais tranquilo, mas parecem esquecer que esses meses de quarentena são pouco tempo para avaliarmos. Uma vida reclusa pode ser um triste fim. É a solidão do indivíduo, em que o outro parece ser uma ameaça.

Lembro-me do tempo em que fui chefe, e as secretárias colocavam na porta uma figura estilizada de uma pessoa que avisava: o chefe alegre, com um sorriso; ou o chefe bravo, com a cara emburrada. Precursores dos emojis atuais.

No ano passado, via, na televisão, as imagens das ruas do Japão ou da China com transeuntes mascarados, não por causa da pandemia, mas devido à poluição. Comentava: é bom nos acostumarmos a isso. Será em breve o nosso futuro.

Hoje, o coronavírus 2 transformou essa prática numa situação global, como é a questão ambiental sempre deixada de lado pelos políticos e com pouca consciência da população. Uma nova ameaça já tem sido anunciada faz tempo. O clima, com o aquecimento global da temperatura e o crescimento drástico da poluição do ar, da água e a perda das condições de vida saudável estão gradualmente alarmando. A extração desmesurada de uma riqueza mineral que jamais será recuperada deixa a sua cicatriz.

O desafio que ora se coloca é descobrir uma nova relação com uma natureza, que responde às ações em tempo muito mais longo do que o esperado. Mudanças produzidas no presente só terão uma resposta em um futuro distante. E, de acordo com todas as previsões, já ingressamos em um quadro de crises divulgadas, sem que tenhamos soluções.

O que está se vivendo é o impacto entre uma visão imediatista, em que se olha o que se pode tirar da natureza em benefício de uns poucos, e uma perspectiva de longo prazo, cujo horizonte está além de nossa imaginação, exigindo um novo modelo de desenvolvimento.

A conscientização de que a vida é um processo histórico e que a existência de uma espécie parece se situar na casa de alguns milhões de anos despertou um alerta: como a vida humana poderá suportar as violentas transformações causadas pelo avanço desenfreado da tecnologia desde o início da Revolução Industrial?

Lembro-me de Michel Serres no Contrato Natural, que alertava: “o navio correndo a vinte e cinco nós em direção a uma barreira rochosa onde infalivelmente ele baterá e sobre cuja ponte o oficial superior recomenda à máquina reduzir um décimo da velocidade sem mudar a direção”. 

O que virá após a pandemia da covid-19 é uma nova relação com o mundo natural que ainda está por vir. Os humanos têm sido os vírus da natureza, espalhando a destruição do seu hábitat, dizimando a enorme biodiversidade.

 

“Bico calado

Toma cuidado

Que o homem vem aí

O homem vem aí”

(‘Passaredo’, de Chico Buarque e Francis Hime)

 

Teremos saudades do passado? Teremos a coragem de admitir?

Tenho saudades de um futuro que não existirá.

 

Henrique Lins de Barros

Pesquisador Titular

CBPF

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