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Físico ‘sem fronteiras’ transforma cordel em ferramenta de trabalho

  • Publicado: Terça, 27 de Fevereiro de 2018, 15h38
  • Última atualização em Terça, 27 de Fevereiro de 2018, 15h40
  • Acessos: 880

Físico, professor universitário, especialista em cordel, divulgador do baião e ex-empresário. Wilson Seraine é tudo isso. E mais: é considerado, dentro e fora do Brasil, uma das maiores referências quando o assunto é a vida e obra do músico, cantor e compositor Luiz Gonzaga (1912-1989).

Seraine nasceu no Piauí, viveu a infância e parte da adolescência no Rio de Janeiro e, por força das circunstâncias ‒ ou, talvez, atraído pela saudade de sua terra ‒ voltou ao seu estado natal.

Em sua graduação, na Universidade Federal do Piauí, chegou mesmo a pensar que sua vida se resumia à física, mas a vida o levou de volta ao mundo dos cordéis, da música e da cultura nordestina. Voltou aos estudos no auge de sua maturidade profissional e escreveu sua dissertação, mostrando como a poesia do cordel pode ser uma ferramenta de auxílio no aprendizado de ciência nas escolas.

 

Wilson Seraine, físico e especialista em cordel e baião

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Há 23 anos, Seraine é professor do curso de física radiológica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI). Foi diretor da Fundação Nordestina de Cordel por mais de dez anos. “Mas não se engane, não sou sanfoneiro, nem forrozeiro, nem escritor”, brinca. Ano passado, seu programa de rádio, ‘A Hora do Rei do Baião’, na Rádio EntreCultura, completou 10 anos.

Confira a seguir, os melhores momentos da entrevista que Seraine deu ao Núcleo de Comunicação Social do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (NCS-CBPF).

 

Cláudia Vanise

Especial para o NCS-CBPF

 

O que nasceu primeiro, a paixão pela física, pelo cordel, baião ou por Luiz Gonzaga? Acho que nasceram todas na infância. As ciências, o cordel e o Piauí eram minhas paixões. Lia muito sobre meu estado natal, mesmo morando, à época, na cidade do Rio de Janeiro. Aos 13 anos, quando perdi meu pai, minha família decidiu voltar ao Piauí. Concordei, porque achava que, nascido aqui, deveria fazer minha vida aqui. Conheci a física na 7ª série, assistindo ao ‘Telecurso 2º grau’ junto com meu pai.

Depois do ensino médio, passei no vestibular para a Universidade Federal do Piauí e larguei qualquer relação com o folclore, a cultura e o cordel. Só queria saber de física. Mas, em 1986, no Encontro de Físicos do Norte e Nordeste, ouvi [o físico brasileiro e fundador do CBPF] José Leite Lopes [1918-2006] dizer uma frase que marcaria minha vida e, até hoje, ecoa em minha mente: “A física maltrata muito a gente. Então, quando você estiver cansado de estudar física, estiver maltratado por ela, leia sobre cultura. Leia sobre a história de sua cultura, conheça a história de sua gente...”

'Nossa intenção não era de criar um trabalho lúdico, recreativo,

mas, sim, provar que o cordel facilita o aprendizado. Provamos' 

O que mudou depois de ouvir isso de Leite Lopes? No ano seguinte [1987], fui com amigos à missa do Vaqueiro, em Serrita (PE), missa criada por Luiz Gonzaga. Lá, fiquei muito impressionado com a força da figura de Luiz Gonzaga. Era forte demais, me marcou. Depois de terminar a universidade, abri logo uma escola com os amigos e mergulhei no universo empresarial. O negócio foi crescendo, e eu viajava muito. Nessas andanças, comecei a reunir material sobre Luiz Gonzaga, o que me rendeu um rico acervo de sua vida ‒ que representava, no entanto, apenas 30% do que tenho hoje. Os amigos, observando aquilo, me incentivaram a iniciar uma divulgação de sua vida e obra. Nasceu, então, o programa de rádio a ‘Hora do Rei do Baião’, para falar dele. Assim, tornei-me referência em Luiz Gonzaga, retomando minha paixão pela cultura e pelo cordel, abandonada até conhecer Leite Lopes.

 

O que veio depois? O colégio que criamos cresceu demais ‒ proporções gigantescas. Depois de 20 anos, vendi minha parte: decidi que era tempo de retomar os estudos, do ponto em que havia parado. Fui, assim, fazer mestrado na Ulbra [Universidade Luterana do Brasil], em Canoas (RS). Lá, conheci Renato Pires, aficionado por cultura, que me disse que seria meu orientador ‒ ele queria saber mais sobre cordel. Em minha casa, mostrei a ele cordéis relacionados à ciência, e começamos a trabalhar. Nossa intenção não era de criar um trabalho lúdico, recreativo, mas, sim, provar que o cordel facilita o aprendizado. Provamos.

"Quando aplicamos o questionário nas turmas, as notas

de todos os alunos subiram de forma satisfatória"

 

Como chegaram às conclusões sobre o uso do cordel no ensino das ciências, tema de sua dissertação? Aplicamos o método em duas turmas de 7ª série, em uma de minhas escolas. Uma turma com notas muito boas; outra com notas bem baixas. Por exemplo, quando a professora de ciências iniciou o ensino do sistema excretor, pedi ao cordelista Pedro Costa, grande amigo, que ‘cordelizasse’ o capítulo. Ele o fez. Um das turmas teve aulas com o livro-texto; a outra com o cordel de Pedro Costa. Quando aplicamos o questionário nas turmas, as notas de todos os alunos subiram de forma satisfatória.

 

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