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Coletânea sobre Maxwell é boa notícia para os que apreciam história da física

  • Publicado: Segunda, 08 de Janeiro de 2018, 17h12
  • Última atualização em Segunda, 08 de Janeiro de 2018, 17h32
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RESENHA

 

Pablo Batista, tecnologista pleno do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), resenha a coletânea James Clerk Maxwell – Textos selecionados, organizada por Antonio Augusto Passos Videira e Carlos Fils Puig, lançada recentemente pela Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, na coleção ‘Clássicos da Ciência’

 

Não paira qualquer incerteza de que os dois últimos anos deixarão marcas inesquecíveis na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ): salários atrasados, demissão de servidores terceirizados, serviços públicos interrompidos e tantos outros inconvenientes.

Porém, em meio a um sem-número de más notícias, uma surpresa (boa): a publicação de mais um livro da Coleção Clássicos da Ciência, pela EdUERJ, editora dessa universidade.

Um dos objetivos desse projeto editorial é valorizar os textos científicos que marcaram suas respectivas épocas, permitindo, assim, que esse conhecimento extrapole os muros da academia. Seguindo esse preceito, desde 2012, já foram publicados quatro livros. O título mais recente da publicação é James Clerk Maxwell – Textos selecionados.

O livro reúne a tradução de oito textos de um dos mais importantes cientistas e filósofos naturais de todos os tempos. Maxwell nasceu na Escócia, em 13 de junho de 1831, mas passou a maior parte de sua vida em Cambridge, na Inglaterra. Ao longo de sua carreira, teve a oportunidade de vivenciar uma época de grandes mudanças. Por exemplo, o surgimento da teoria evolução do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882); a descoberta de novos fenômenos elétricos e magnéticos; a produção de bens em larga escala, por meio da máquina a vapor; a comunicação a distância com o uso do telégrafo; e tantas outras novidades.

Seu legado está intimamente ligado ao desenvolvimento da teoria do eletromagnetismo, que unifica os fenômenos da eletricidade, do magnetismo e da óptica. Esse foi um dos maiores feitos da história da ciência.

Maxwell pode ser considerado um dos primeiros filósofos naturais do século 19 que dedicaram sua vida profissional à pesquisa científica como funcionário público. Sua proeza e habilidade com a matemática já se manifestavam desde jovem: aos 14 anos, ganha seu primeiro prêmio, a medalha Adams de matemática; no ano seguinte, em 1849, publica seu primeiro artigo, sobre a produção de ovais em geometria. Dois anos depois, mais um artigo, também sobre geometria. Entre 1856 e 1860, foi professor no Marischal College, da Universidade de Aberdeen (Escócia), quando se dedicou a lecionar para trabalhadores, em um curso noturno.

Em 1860, passou a dar aulas no King’s College, em Londres. Esse é considerado o período mais produtivo de sua carreira, no qual foi eleito membro da Royal Society, iniciando contato mais próximo com o físico Michael Faraday (1791-1867). Em 1865, volta à propriedade da família, na Escócia, para administrá-la, por causa da morte de seu pai. Em 1871, tornou-se o primeiro detentor da cátedra ‘Cavendish de Física’, cargo que lhe fez responsável pelo Laboratório Cavendish, em Cambridge (Inglaterra). Trabalharia ali até sua morte prematura, aos 48 anos de idade, em 5 de novembro de 1879.

 

Evento mais significativo

Considerado por muitos um matemático de primeira grandeza, Maxwell dedicou-se, ao longo da vida, simultaneamente e com muito empenho, a diversos ramos da física, deixando contribuições importantes para todas elas. Um de seus admiradores, o físico norte-americano Richard Feynman (1918-1988), Nobel de Física de 1965, disse não ter dúvida alguma de que a descoberta de Maxwell sobre as leis do eletromagnetismo foi o evento mais significativo do século 19. Para ele, a Guerra Civil Norte-americana (ou Guerra de Secessão) foi insignificante quando comparada àquele importante evento científico da mesma década.

Para esse livro, foram escolhidos pelos organizadores textos para trazer à tona a diversidade da pesquisa de Maxwell. Por exemplo, seu trabalho sobre a percepção das cores; suas discussões sobre teoria de gases e termodinâmica; e seu trabalho sobre os anéis de Saturno. Há também uma excelente introdução, contextualizando cada um dos textos, bem como uma lista de referências para cada um dos capítulos, para que o(a) leitor(a) interessado(a) possa ir além do conteúdo das páginas.

Foram incluídos também textos de cunho mais geral e filosófico, para a compreensão do método de trabalho de Maxwell e suas reflexões sobre o conhecimento humano. Dois exemplos: ‘Palestra introdutória à física experimental’ e ‘Existem analogias reais na natureza’?

No primeiro, Maxwell elabora argumentos para apresentar a ideia de que a produção do conhecimento deveria também se dar por meio dos experimentos em laboratório, em um momento em que o trabalho experimental era tido como de 'segunda linha', como uma atividade ‘menos nobre’.

No segundo, o físico escocês apresenta argumentos para corroborar a ideia de que as analogias são reais na natureza. Nesse caso, é curiosa a perspectiva apresentada por ele, ao enxergar que as únicas leis da matéria são aquelas que nossas mentes podem fabricar, e as únicas leis da mente são aquelas que a matéria fabricou para ela. Vale destacar que o uso de analogias por Maxwell para desenvolver modelos inaugura uma nova metodologia científica.

 

Par perfeito

A tradução é iniciativa de Carlos Fils Puig, que tem formação em filosofia – o livro, provavelmente, está relacionado ao tema de seu mestrado, ‘James Clerk Maxwell e a unidade do mundo: modelos e metáforas na construção de teorias científicas’, de 2014, defendido no Programa de Pós-graduação em Filosofia da UERJ, sob orientação de Antonio Augusto Passos Videira, também pesquisador colaborador do CBPF – a dissertação pode ser baixada de bdtd.ibict.br

O filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994), em seu livro Em busca de um mundo melhor, lança uma pergunta incisiva: “O que podemos fazer para configurar nossas instituições públicas, de modo tal que governantes ruins ou incompetentes (que obviamente tentamos evitar, mas, ainda assim, podemos ter) possam causar o menor dano possível?”. A publicação dessa coletânea de Maxwell me parece um gesto benigno nesse sentido.

Finalizo esta resenha ressaltando que a coletânea e a dissertação de Puig fazem um par perfeito de leitura para aquele(a)s interessado(a)s em história e filosofia da ciência.

 

Pablo Batista

Tecnologista Pleno

Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

 

SERVIÇO

 

Livro: James Clerk Maxwell – Textos selecionados (Clássicos da ciência)

Organizadores: Antonio Augusto Passos Videira e Carlos Fils Puig

Editora: EdUERJ

Páginas: 164

Preço sugerido: R$ 35,00

 

 

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