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Argentina é tema de ensaio de emérito da UFMG

  • Publicado: Quarta, 09 de Setembro de 2020, 17h55
  • Última atualização em Quinta, 10 de Setembro de 2020, 12h16
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A convite do Núcleo de Comunicação Social do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), o físico Alaor Chaves, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, escreve sobre as singularidades da Argentina, abordando as raízes históricas da formação da nação e a atual situação política e econômica do país.

 

A singular nação argentina

 

“Há quatro tipos de países: os desenvolvidos,

os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina”

Simon Kuznets

 

O memorável aforismo de Kuznets (1901-1985), prêmio Nobel de Economia em 1971, é citado com frequência, sem dados que esclareçam o que ele queria dizer. Mas há especulada concordância sobre a intenção do autor: desde o terço final do século 19, os dois países que ele distinguiu de todos os outros tiveram histórias deveras singulares.

O Japão saiu do sistema feudal em 1868, modernizou-se rapidamente e, apesar de sua experiência calamitosa na Segunda Guerra Mundial, prosperou de maneira única desde então e transformou-se em uma das nações mais inovadoras do mundo – cabendo lembrar que sua prosperidade econômica teve forte redução desde a década de 1990, quando Kuznets já estava morto.

Já a Argentina, que desde1870 vinha prosperando de maneira incomparável, a partir da depressão de 1929, entrou em uma fase de instabilidade política e de decadência que ainda hoje não teve fim.

 

Formação da nação argentina

O que é hoje a nação argentina tem características geográficas e climáticas muito singulares, do que resultou história também singular. Em seu centro oriental, encontra-se a larga foz do rio da Prata, coletor da água de uma grande bacia que cobre parte do Brasil e todo o Paraguai. Esse ponto é rodeado, em terra, pelos pampas, infindável planície de terras muito férteis, clima subtropical e chuvas bem distribuídas ao longo do ano.

Mas a colonização da Argentina foi muito tardia. Aos colonizadores espanhóis, interessavam mais as ilhas do Caribe, a América Central e o México. Juan Diaz de Solis descobriu o rio da Prata em 1516. Foi morto por índios no Uruguai, e parte de seus comandados fugiu com as caravelas. Houve um naufrágio, e vários deles alcançaram a ilha de Santa Catarina, atual Florianópolis.

Diziam que quem subisse o rio de peito largo chegaria à serra da Prata, o que rendeu esse belo nome ao rio e resultou em expedições de aventureiros em busca do tesouro. Nada acharam, mas, nas barrancas do rio, criaram fortes – dois deles sementes das cidades de Rosário e Santa Fé.

Na América do Sul, despertou a cobiça dos espanhóis o riquíssimo império Inca, com sede no Peru. O conquistador Francisco Pizarro prendeu o imperador Inca Atahualpa em 1533. Exigiu de seus súditos muito ouro para que liberasse o monarca, mas o matou no mesmo ano, após receber toneladas do precioso metal.

O império Inca desmoronou rapidamente, e, em 1542, os espanhóis fundaram o Vice-Reino do Peru, com sede em Lima, cuja jurisdição estendia-se para o sul até abaixo da foz do Prata. O Vice-Reino foi dividido em grandes capitanias. Uma delas cobria a região do Cuyo, nome de um bioma na margem oriental dos Andes, que inclui a atual província de Mendoza.

Em 1536, o governador do Cuyo, Pedro de Mendoza, fundou o arraial de Santa Maria del Bueno Ayre, no local onde bem mais tarde floresceu a cidade de Buenos Aires. Em 1541, o arraial tornou-se desabitado.

As primeiras cidades da Argentina foram todas criadas nas regiões mais ao norte do país. A primeira delas foi Santiago Del Estero, fundada em 1553, e, hoje, apelidada Madre de Ciudades. Pouco depois, vieram Mendoza (1561) e São Miguel de Tucumã (1565).

Córdoba foi fundada em 1573, a apenas 713 quilômetros ao noroeste de Buenos Aires. Hoje, é a segunda maior cidade da Argentina e seu principal polo industrial. Nela, em 1613, os jesuítas fundaram a Universidade de Córdoba, a mais antiga do país.

Colonizadores voluntários foram aos poucos chegando a Buenos Aires, cuja posição privilegiada a tornava porto de todo o comércio argentino através do Atlântico. O comércio prosperou, grande parte dele por contrabando. Navios ancoravam no porto para reparos e pagavam os serviços em produtos.

Estâncias surgiram nos pampas vizinhos – prosperou a criação de gado e ovelhas, bem como a plantação de trigo. Daí, difundiram-se pelo interior. Gado fugitivo das estâncias povoou amplas regiões e servia de alimento para o gaucho argentino (tônica no a), gente seminômade dada à guitarra, à milonga, à valentia e ao punhal, que sempre trazia preso à cintura. Assava-se a carne fresca do gado selvagem sobre um braseiro, sem uso do sal, o que deu origem ao famoso asado argentino.

Buenos Aires prosperava. Em 1776, os espanhóis criaram o Vice-Reino do Rio da Prata, que abrangia aproximadamente os territórios da Argentina, do Paraguai, Uruguai e da Bolívia, do qual Buenos Aires tornou-se a capital. Isso ocorreu no ano da independência norte-americana, que inspirou movimentos de independência em todas as colônias das Américas.

Em 1808, Napoleão invadiu a península Ibérica, o que deu nova força a esses movimentos de libertação. O rei da Espanha, Ferdinando VII, foi obrigado a renunciar, e Napoleão colocou em seu lugar seu irmão José Bonaparte. Houve resistência na Espanha, mas, no começo de 1810, Napoleão dominava boa parte do país.

Isso deu início ao movimento de libertação da Argentina, cujo primeiro passo foi a Revolução de Maio, ocorrida entre 18 e 25 daquele mês, em Buenos Aires. Começou com a remoção do vice-rei Baltasar Hidalgo Cisneiros, cuja legitimidade foi questionada – o rei espanhol que o nomeara tinha sido deposto. Em seu lugar, os portenhos criaram governo local, a Primeira Junta.

A independência só foi concretizada e declarada em 1916, no Congresso de Tucumã. O novo país foi dividido em 12 províncias, as Províncias Unidas do Rio da Prata. O Paraguai proclamou, sem luta, sua independência, e a Bolívia continuou sendo colônia da Espanha até 1825, quando também se tornou independente.

A Patagônia e a hoje província do Pampa, a sudoeste de Buenos Aires, não compunham a união de províncias. O Uruguai era uma das províncias unidas, denominada Província do Oriente.

Cada província tinha seu governador, mas não havia um governo central. De 1831 a 1861, as províncias compuseram a Confederação Argentina, que também não tinha governo central formal.

 

Meio século de caudilhismo

Havia tempo, Buenos Aires vinha se desenvolvendo de maneira distinta do interior argentino. Enquanto ali prosperava uma burguesia comercial, liberal e culta, o interior, que incluía quase toda a província de Buenos Aires, era controlado por grande número de caudilhos – pouco instruídos e conservadores – que lutavam entre si, e todos lutavam contra os ‘estrangeirismos’ e a prepotência da cidade de Buenos Aires. Os caudilhos tinham suas milícias, formadas por gauchos contratados como peões nas enormes estâncias ou recrutados à força para suas guerras.

A política do país foi dominada por dois partidos. O Partido Unitário defendia um poder central forte outorgado à província de Buenos Aires, e pouca autonomia para as outras províncias, enquanto o Partido Federal defendia um status igual para todas elas.

Na verdade, havia contraste ideológico e cultural entre os portenhos e o restante da província de Buenos Aires – a maior e mais populosa da Argentina, da qual a cidade Buenos Aires era então a capital. Em 1880, a cidade tornou-se um distrito federal, e La Plata tornou-se capital da província.

Por ironia, o paradigma do caudilhismo foi Juan Manoel de Rosas, governador de Buenos Aires que, de 1830 a 1854, foi o presidente de fato argentino. Rico estancieiro, dominou o país com poder ditatorial e tirânico, contra o qual ninguém ousava opor-se.

Em 1854, Justo José de Urquiza, governador da província de Entre Rios, derrotou Rosas, com a ajuda do Império do Brasil. Rosas fugiu para a Inglaterra, afirmando que “não fora deposto pelo povo, mas, sim, pelos macacos, os brasileiros”.

 

República Argentina

Em 1861, a Argentina organizou-se como república constitucional. Seus primeiros presidentes, Bartolomé Mitre (1861-1868) e Domingos Faustino Sarmiento (1868-1874), foram iluministas que se distinguiram dos políticos argentinos passados.

Mitre escreveu vários livros, e traduziu a Eneida, de Virgílio, e a Divina comédia, de Dante, para o espanhol. Sarmiento escreveu 16 livros. O mais influente deles foi Facundo: civilização e barbárie, crítica da cultura gaucha, do caudilhismo e de Rosas. Nesses governos, a Argentina modernizou sua agricultura, construiu ferrovias e linhas telegráficas, bem como começou a receber imigrantes europeus de várias origens.

Sarmiento, que havia visitado os EUA e a Europa para conhecer seus sistemas educacionais, deu grande ênfase à educação em seu governo. Duplicou o número de escolas públicas e criou mais de cem bibliotecas. De 1861 a 1930, cada presidente argentino foi sucedido por outro eleito.

A prosperidade veio com a ordem democrática e institucional, além de bom sistema educacional, infraestrutura e políticas liberais e comerciais inspiradas em Adam Smith. O país abriu-se para o comércio internacional e tornou-se grande exportador e importador.

Mitre perdeu popularidade por ingressar na Tríplice Aliança – que incluía o Brasil, rival da Argentina com antigo interesse em dominar parte da região platina, principalmente o Uruguai – na guerra contra o Paraguai.

O impacto da Guerra da Tríplice Aliança sobre a economia argentina foi relativamente pequeno. O dinheiro que o país ganhou fornecendo grãos e carne para as tropas brasileiras cobriu parte dos gastos que teve com a guerra – a bem da verdade, quem derrotou o Paraguai e matou covardemente três quartos de sua população masculina foi o Brasil.

Após o final da guerra, em abril de 1870, o Brasil teve uma década de recessão econômica, ao passo que a Argentina retomou prontamente sua prosperidade.

 

A tragédia Argentina

Em 17 de fevereiro de 2014, a revista inglesa The Economist publicou o longo artigo ‘The tragedy of Argentina: a century of decline’. Um século atrás, diz o artigo, a Argentina era o futuro. De 1871 a 1914, o país cresceu em média 6% ao ano (recorde mundial) e era um ímã para imigrantes europeus.

Em 1914, metade dos habitantes de Buenos Aires tinha natalidade estrangeira, e o PIB per capita do país superava os da Itália, da França e da Alemanha – era mais de quatro vezes o do Brasil. O que trouxe a Argentina a tão longo declínio, cujo fim ainda não parece próximo?

As razões são tão numerosas que os estudiosos fracassam em construir teoria que as englobe de forma simples. Isolamento econômico, controle político do câmbio, falta de inovação, estatismo e uso político das estatais, subsídios excessivos e de eficácia questionável, populismo, polarização política excessiva, desapreço à democracia e à responsabilidade fiscal entram na lista dos erros recorrentes.

Houve golpes de estado no país em 1930, 1942, 1955, 1962, 1966 e 1976. Em 1989, pela primeira vez em 60 anos, um governo civil foi sucedido por outro governo eleito.

Os governos não respeitam contratos nem reconhecem o dever de honrar suas dívidas. Os argentinos não emprestam dinheiro ao governo porque duvidam de seu compromisso de devolvê-lo. Usam suas economias para comprar dólares, que guardam no exterior, em cofres bancários ou em suas casas – por isso, a dívida pública argentina é quase toda externa, a qual os governos questionam com recorrentes bravatas e calotes.

Como dizem ironicamente alguns brasileiros, só um país com a sofisticação argentina é capaz de criar tamanha confusão. Ignoram que nosso país tem se esforçado com dedicação para repetir os erros argentinos (e ainda outros), razão pela qual nosso PIB per capita ainda é inferior ao argentino.

 

Alaor Chaves

Professor emérito

UFMG

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