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Muito além do nosso eu é autobiografia que reforça estereótipos de cientistas

  • Publicado: Terça, 10 de Outubro de 2017, 20h19
  • Última atualização em Quarta, 11 de Outubro de 2017, 16h35
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RESENHA 

Pablo Batista, tecnologista pleno do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), resenha o livro com viés autobiográfico Muito além do nosso eu a nova neurociência que une cérebro e máquinas e como ela pode mudar nossas vidas, do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, pesquisador na Universidade Duke (EUA). Lançada originalmente em 2008, a obra ganhou recentemente segunda edição atualizada e em formato eletrônico.

 

Muito além do nosso eu, livro escrito por Miguel Nicolelis e reeditado recentemente pela editora Planeta (incluindo versão para leitores de livros digitais), pode, sem que corramos muitos riscos, ser catalogado em uma biblioteca como uma ‘autobiografia científica’ – no caso, de alguém que se autointitula neurocientista. Como quase todas as autobiografias, esta também corre um tremendo risco de entediar determinados leitores pela densidade de casos de sucesso retratados em primeira pessoa, da primeira à última página. Por outro lado, a leitura do livro é um prato cheio para aqueles que desejam conhecer o ‘lado B’ e ‘C’ do meio científico.

O livro conta a história de quem dedicou seus últimos 33 anos à tarefa de escutar, pacientemente, os ‘sons’ produzidos pelo cérebro, por acreditar que a partir desse mapa topográfico seria possível alcançar detalhes da natureza humana. Nos primeiros capítulos, para tornar esse acontecimento palpável ao leitor, o autor escolhe um estilo pautado em analogias baseadas em partidas de futebol e orquestras sinfônicas, tentando transmitir a ideia de que, para ele, o todo não pode ser obtido simplesmente a partir da soma das partes.

Em uma primeira impressão, pode-se concluir que o ponto central do livro gira em torno da disputa entre duas maneiras de compreender o funcionamento do cérebro. De um lado, os chamados ‘localizacionistas’ apostam na ideia de que as funções do cérebro podem ser mapeadas em regiões específicas na massa encefálica, formando um tipo de mapa funcional. De outro, os ‘distribucionistas’ acreditam na complexidade do cérebro e, portanto, não propõem que este possa ser dividido, como vinha sendo desde o século 18, pelo neuroanatomista e fisiologista alemão Franz Gall (1758-1828). Na verdade, este último grupo concebe o funcionamento do cérebro a partir da atividade coletiva de milhões de neurônios espalhados em diversas regiões cerebrais. Apesar das diferenças, observamos que as duas escolas ainda procuram pela verdadeira unidade funcional do cérebro.

Avançando alguns capítulos, é possível ter uma segunda impressão: a de que os trabalhos científicos provavelmente alcançaram uma visibilidade significativa, tanto no meio acadêmico quanto na sociedade contemporânea, quando o neurocientista deixou de lado a disputa por uma teoria científica para se dedicar ao desenvolvimento de tecnologias que podem ter, de uma maneira ou de outra, relevância em nossa época. Um exemplo importante é a interface cérebro-máquina (ICM).

O autor – que é também pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), no Rio Grande do Norte – nos conta que, a princípio, a ideia da ICM surgiu para corroborar a teoria apresentada pelos distribucionistas – grupo do qual ele se diz adepto. Essa proposta vem sendo, desde sua consolidação, uma ‘garota-propaganda’ do grupo de pesquisa liderado por Nicolelis na Universidade Duke (EUA) e, mais recentemente, no IINN, que tem com uma de suas missões, segundo o autor, gerar produtos tecnológicos em um contexto que os neurocientistas denominam ‘indústria do cérebro’.

 

- Como quase todas as autobiografias, esta também corre um tremendo risco de entediar determinados leitores pela densidade de casos de sucesso retratados em primeira pessoa, da primeira à última página. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Relativo ou relativístico?

Dois capítulos de Muito além do nosso eu nos despertam bastante atenção. O primeiro descreve uma teoria (ou modelo) para explicar o funcionamento do cérebro. Nesse caso, Nicolelis tenta se equilibrar sobre os ombros de alguns de seus ídolos científicos. Por isso, não sem razão, o livro está repleto de referências a diversos personagens, que, por força maior, fazem parte de nosso imaginário. Exemplo está no capítulo 12 (Computando com um cérebro relativístico), na figura de Albert Einstein (1879-1955), de cuja teoria da relatividade restrita – publicada em 1905 e na qual esse físico de origem alemã lança novas concepções sobre o espaço e o tempo – Nicolelis se apropria para explicar o funcionamento do cérebro.

Assim como tantos outros que, sem a devida formação, tentaram se apropriar dessa teoria ou estendê-la para além de seu escopo conceitual, Nicolelis mostra não ter capturado todas sutilezas da relatividade restrita. O resultado é uma confusão conceitual do neurocientista, que, nesse tópico, acaba por embaralhar o sentido das palavras ‘relativístico’ (da física) e ‘relativismo’ (da filosofia), como destacou sutilmente o físico brasileiro Moysés Nussenzveig em resenha publicada na revista Ciência Hoje ainda em 2011, quando da primeira edição do livro.

Além disso, há na obra excesso de informação em pouco espaço: uma demonstração (desnecessária) de erudição que, certamente, causa desconforto na leitura e pouco ajuda no entendimento do ponto de vista do autor. Por exemplo, em uma única página, o autor mistura o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), o físico escocês James Clerk Maxwell (1831-1879), o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), o matemático austríaco Kurt Gödel (1906-1978) e seu colega alemão Bernhard Riemann (1826-1866).

Com essa panaceia conceitual, Nicolelis tenta justificar o que ele denomina “pensamento relativístico”, tópico que – ao final e pela enxurrada de conceitos atirados contra o leitor – não fica claro no texto, o que nos impede de oferecer ao leitor desta resenha uma definição, ainda que aproximada.

 

– Assim como tantos outros que, sem a devida formação, tentaram se apropriar dessa teoria ou estendê-la para além de seu escopo conceitual, Nicolelis mostra não ter capturado todas sutilezas da relatividade restrita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Liberdade ao cérebro

Outra questão – não menos importante – está escondida no capítulo 2 (‘Libertando o cérebro de Aurora’). Ela diz respeito ao conceito de liberdade a partir do qual Nicolelis forja seus experimentos. Posto de modo simples, para o autor, ser livre é não encontrar obstáculos para se mover. Na perspectiva do autor, o tal ‘cérebro de Aurora’ – assim como o de todos nós – estaria preso há milhares de anos. E, nesse caso, a prisão é o corpo. Em suas palavras, “o corpo é nada mais que uma célula orgânica constritiva e limitada, responsável por aprisionar o cérebro humano”.

Não há nada novo nessa concepção: outros autores já apontaram o corpo como algo ineficiente ou máquina a ser aperfeiçoada. Como adepto dessa linha de pensamento, Nicolelis acredita ser possível libertar o cérebro, hipótese que o neurocientista tenta pôr em prática em seus experimentos com a macaca Aurora, elevada por ele à categoria de coinvestigadora – na mitologia romana, a deusa Aurora era responsável por sobrevoar os céus, anunciando o começo de um novo dia.

Segundo o neurocientista, Aurora é uma macaca em quem mais ninguém acreditava e que, provavelmente, seria sacrificada. Porém, depois de muito esforço do grupo de pesquisa, torna-se a responsável por uma das maiores contribuições à ciência.

Porém, ao justificar tal estatuto àquela que seria – para tantos outros pesquisadores dessa área – mera cobaia de laboratório, o neurocientista passa a impressão de certa desonestidade intelectual: ao se esforçar em construir a imagem de uma ‘heroína’, ele esconde do leitor a realidade muito mais ampla: a dos animais usados nos laboratórios de pesquisa.

 

– Nicolelis acredita ser possível libertar o cérebro, hipótese que o neurocientista tenta pôr em prática em seus experimentos com a macaca Aurora, elevada por ele à categoria de coinvestigadora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rumo ao Éden?

Essa, provavelmente, é mais uma narrativa que o neurocientista constrói e compartilha com os leitores para tentar lidar com o fato de que esses animais são, na verdade, mantidos em laboratórios com o único objetivo de satisfazer as curiosidades científicas de uma época. De maneira geral, o autor se esquiva e perde grande oportunidade ao escolher não entrar na discussão – a qual vem sendo colocada no campo da ética e da política – sobre o uso de animais em experimentos científicos.

Fica tentador afirmar que grande parte da narrativa é construída tendo como base o otimismo ainda tão presente no discurso científico – às vezes, é como se estivéssemos relendo o Cândido, do filósofo iluminista Voltaire (1694-1778). Entretanto, nada de muito excepcional acontece na trajetória desse neurocientista, e, assim, toda a construção do personagem principal – um típico herói deste século – é encenada como se este caminhasse em direção ao Jardim do Éden.

Enfim, esse tipo de narrativa parece apenas corroborar a imagem do cientista como alguém envolto por uma ‘aura dourada’ e que transformará individualmente, de maneira significativa, nosso modo existir em uma sociedade – essa, talvez, seja a grande utopia deste século. Certamente, um relato que reforça o estereótipo do que é a ciência e o que são as pessoas que a praticam.

 

Pablo Batista

Tecnologista Pleno

Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

 

SERVIÇO:

 

 

 

Livro: Muito além do nosso eu - a nova neurociência que une cérebro e máquinas, e como ela pode mudar nossas vidas

Autor: Miguel Nicolelis

Editora: Crítica (selo da editora Planeta)

Páginas: 512

Preço sugerido: R$69,90

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